Mauro Fernandes

By: Mauro Fernandes | August 31, 2017


Vemos carvalhos que afundam as suas raízes sob lareiras que aquecem cem invernos, espécies
que se alimentam de contos que um dia se ouviram ao lado do fogo, raposas, cervos e lobos
que agora habitam nos recantos e caminhos misteriosos. Estamos na Roussia e em Santa
Isabel, duas aldeias unidas no tempo e na história da raia.



Não perguntem pelas pessoas que aqui viveram, as suas memórias perderam-se há muito no
tempo. Talvez, as águias, falcões, milhafres e pombos que aqui assentam os ninhos, as possam
cantar, histórias da quase impossível vida no vale. Se não entendes os seus cantos, pergunta a
um esquilo ou um javali, porque desapareceram as famílias, afinal são eles donos e habitantes
deste recanto do Larouco.



Contam aqueles que os entendem, lendas sobre o fim trágico de um eterno conflito com os
vizinhos do outro lado da fronteira, lendas sobre exércitos de formigas que arrasaram com o
pão, com os animais, por fim, com as mulheres e com os homens. Neste vale, na fronteira
entre Larouco e Castro de Montecelo, a viçosa floresta recupera espaço e vai enterrando o
passado de gerações. Esquecida no tempo e na história, é um paraíso que agora ganha vida
por um dia e por umas horas para portugueses e galegos, numa manhã desportiva. A proposta
foi feita no âmbito do Festival de musica tradicional, LaroucoFest. Vigiados nos ares pelos
nossos engenhos voadores, no pré europeu de Parapente, os atletas fizeram uma corrida de
dezassete misteriosos quilómetros, passando por moinhos, gravuras rupestres, calçadas
romanas e vistas espantosas, onde Manzaneda, Pitões da Júnia e Gerês são confidentes
imponentes e memórias que cada um dos participantes jamais esquecerá.

  

Sobre o resultado da prova de corrida apenas sabemos que o cenário terá enfeitiçado dois dos
primeiros participantes, levando-os a terminarem de mãos dadas, partilhando o que alguém
tentou separar. Contará a história que em tempos existiu uma corrida em Baltar que culminou
na vitória de um português e um galego, em simultâneo, venerando o Deus Larouco, também
ele dividido por uma falsa fronteira. A festa prolongou-se até ao dia seguinte num festival de
musica dança tradicionais chamado Laroucofest, uma boa desculpa para comemorarmos a
vida!

By: Mauro Fernandes | January 22, 2016

Olas e o Larouco e muito mais...


No País Barrosão existem ainda muitos tesouros por descobrir, a sua gente, a sua cultura, a natureza e as suas tradições.

Tão profundo e genuíno como a história das nossas terras e antepassados é o privilégio de entender, sentir e viver a cultura, a natura e as gentes. É uma das recordações mais belas que poderemos guardar e partilhar, é muito mais do que uma corrida de montanha aquilo que propomos com o Ultra Trail Ibérico Vilar de Perdizes. Aqui, a história e as estórias contam-se desde o princípio, por mais remotas que sejam.

  

Os trilhos do Ultra Trail de Vilar de Perdizes percorrem um vasto Património arqueológico, o Megalitismo (pré–história), no período Neolítico, a Pena Escrita, o Penedo Caparinho , os Castros Celtas e Romanos  relembram descobertas como as aras votivas a várias divindades, que os romanos acolheram, relembram ainda o Deus Larouco (Vilar de Perdizes, bem como o Deus Júpiter (Vilar de Perdizes e Chã).  Os trilhos percorrem as Igrejas, Capelas, Alminhas e Cruzeiros.  

  

E tudo aquilo que não vemos porque corremos, todo esse vasto património está preservado e protegido no Ecomuseu do Barroso, uma ideia e forma de salvaguardar o património natural, cultural, social, económico, contribuindo para o desenvolvimento dos seus habitantes, respeitando e valorizando a sua cultura, local de visita obrigatória. Já depois dos trilhos não nos esquecemos da Gastronomia, por esta altura potenciada pela Feira Do Fumeiro (de 21 a 24 de Janeiro). Com o seu  Património Natural, o Barroso constitui uma região, desde a medievalidade, ocupando cerca de mil e cem quilómetros quadrados de superfície.

Enquadra-se na chamada Terra Fria Transmontana, de fortes contrastes climatéricos, com estios de temperaturas elevadas e invernos ventosos e frios. Ainda hoje se repetem dizeres dos antigos sobre a imprevisibilidade e extremos do clima;


“nove meses de Inverno

e três de inferno”;


“primeiro de Agosto, primeiro de Inverno”.


  


O Larouco e os seus 1535 metros, rodeado de um planalto com altitude média de 800 metros, permite um cenário diferenciado com paisagens de perder o fôlego, permitindo correr a altitudes acima da média da grande maioria das provas. A proximidade cultural com a Galiza, as fabulosas histórias da raia e do contrabando, o misticismo, as bruxas, o Congresso de Medicina Popular, o Padre Fontes, as Olas de Santa Marinha, as belíssimas igrejas e capelas, a religião, o Auto da Paixão, preparado meses a fio e interpretado pelos melhores atores (a população de Vilar de Perdizes), uma mescla de cultura, tradições, património e uma forma de viver em natureza tornam esta região verdadeiramente distinta.

  

 Mais haveria para dizer, mas queremos deixar à descoberta de cada um. De tudo isto é feito o Ultra Trail Vilar de Perdizes, mas é sobretudo preparado e organizado por pessoas que comungam destes valores, que se apaixonaram pelo Barroso, porque sempre cá viveram, porque conheceram e não mais esqueceram, porque vivem a natureza, porque vivem o trail, porque se encantaram pelas gentes e pela cultura. O que não reza a história  por estes lados é de facilidades ou desistências, como alguém dizia, a felicidade só faz sentido se partilhada. Sabem-no bem aqueles que por cá passam!


Texto:Mauro Fernandes
Fotos: Nuno Faria
Revisão:Elsa Ribeiro

Category: Trail 

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